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Ilhas Canarias : Lanzarote de ponta a ponta, de bicicleta

Ilhas Canarias : Lanzarote de ponta a ponta, de bicicleta

Pedalar em Lanzarote de ponta a ponta, de bicicleta é atravessar uma paisagem vulcânica onde o vento é constante e o silêncio tem densidade.

As Ilhas Canarias

As Ilhas Canarias são um arquipélago espanhol no Atlântico, formado por oito ilhas habitadas e alguns pequenos ilhéus. São elas: Tenerife, Gran Canaria, Lanzarote, Fuerteventura, La Palma, La Gomera, El Hierro e La Graciosa. Cada uma carrega uma identidade própria — ora montanhosa, ora desértica, ora verde, ora mineral.

Quando decidi conhecer o arquipélago, escolhi quatro delas: Gran Canaria, Lanzarote, Fuerteventura e Tenerife.

Em Tenerife, o que define o percurso é a altitude. A presença do Teide impõe respeito. As subidas são longas, consistentes, exigentes. É a ilha do desafio físico, do treino estruturado, da cadência controlada. Não por acaso, ciclistas profissionais europeus escolhem Tenerife para preparação de inverno. Pedalar ali é testar limites, medir potência, sentir o peso real da montanha.

 

Atlântico em Tenerife: onde o horizonte não termina, apenas começa.

 

 

Gran Canaria é diferente. É variada, sinuosa, cheia de microclimas. Em poucos quilômetros a paisagem muda, o vento muda, a temperatura muda. As estradas são bem conservadas e as subidas técnicas. É uma ilha dinâmica, talvez a mais equilibrada entre desafio e diversidade.

 

 

Já Fuerteventura é aberta, extensa, quase desértica. Ali o vento não é detalhe — é protagonista absoluto. As distâncias entre vilas podem ser maiores, a sensação de isolamento mais intensa. Para quem gosta de gravel ou de percursos mais selvagens, é um território fascinante. Mas é uma ilha que exige planejamento e autonomia.

 

 

Pedalar em Lanzarote foi nossa escolha

E então há Lanzarote, a que escolhi para explorar de bicicleta. Foi ali que a paisagem fez mais sentido sobre duas rodas. Ela não é a mais alta, nem a mais verde, nem a mais variada. É a mais essencial. A paisagem vulcânica é quase monocromática. Negro de lava, branco de casas, azul de mar.

 

Enquanto Tenerife desafia a musculatura e Gran Canaria impressiona pela diversidade, Lanzarote impressiona pela paisagem árida. O silêncio ali tem densidade. Pedalar em Lanzarote é aceitar o vento lateral, ajustar o ritmo e perceber que não é necessário muito para uma experiência marcante.

Características do Percurso

A rota é quase na totalidade em asfalto — um asfalto bom e regular. Percorremos apenas um pequeno trecho, já nos aproximando de Caleta de Famara, em estrada de cascalho e trilhas de terra batida, o suficiente para lembrar que a ilha ainda guarda seu lado mais rústico.

O tráfego de carros é mínimo, pois optamos, sempre que possível, por estradas secundárias. Lanzarote possui uma via rápida principal — a LZ-2 — que liga Arrecife ao sul da ilha, passando por Puerto del Carmen até Playa Blanca. Embora não seja uma autoestrada no modelo continental, é a rodovia de maior fluxo da ilha e, para quem viaja de bicicleta, raramente é a melhor escolha.

Nas estradas secundárias, o que se ouve não é o ruído dos motores, mas o vento — constante, lateral, às vezes desafiador. É ele, e não o trânsito, o verdadeiro protagonista do percurso. Pedalar por essas vias menores permite uma experiência tranquila, onde a paisagem vulcânica se impõe e o tempo desacelera.

A altimetria do percurso é, em sua maioria, plana, o que torna a rota ideal tanto para iniciantes quanto para ciclistas mais experientes.

Sinalização

Em Lanzarote não existem ciclorrotas oficiais sinalizadas como na EuroVelo. Não há placas indicando “Rota 1”, “Rota 2” ou um traçado institucionalizado para cicloturismo. E, ainda assim, a sensação de segurança surpreende.

A infraestrutura viária é bem-organizada e a sinalização nas estradas impressiona. Ao longo dos percursos — especialmente nas vias secundárias — há placas frequentes alertando para a presença de ciclistas. Em muitos trechos, praticamente a cada quilômetro, a sinalização reforça que o motorista deve manter distância e respeitar a prioridade de quem pedala.

Não é uma ilha desenhada exclusivamente para bicicletas. Mas é uma ilha que reconhece a bicicleta como parte do seu cenário. E isso muda tudo.

Além das placas específicas para ciclistas, a sinalização rodoviária em geral é clara, objetiva e bem conservada. Rotatórias bem-marcadas, placas de direção visíveis à distância e indicação precisa de localidades facilitam a navegação, mesmo sem ciclorrota oficial.

Quantos dias são necessários?

Depende do tempo que você tem disponível. As distâncias na ilha são relativamente curtas, o que permite diferentes formatos de roteiro.

Nós optamos por um ritmo lento e contemplativo — aquele que respeita o vento, a paisagem e as pausas.

Ao todo, foram 7 etapas. O suficiente para explorar a ilha de norte a sul , leste a oeste.

Qual bicicleta levar ou alugar

Levar a própria bicicleta pode parecer, à primeira vista, a escolha mais confortável. Há segurança em pedalar algo que já está ajustado ao seu corpo, no selim que você conhece, na posição que seu corpo já memorizou. No entanto, no caso das Ilhas Canárias, a logística precisa ser considerada com cuidado. As conexões aéreas, geralmente via Madri ou Barcelona, aumentam o custo do transporte da bicicleta. Além das taxas extras por trecho, há o risco de danos no transporte e o trabalho adicional de desmontar, embalar e remontar a bike ao chegar.

Por outro lado, alugar na ilha se mostrou uma solução prática e eficiente. Lanzarote tem boa oferta de lojas especializadas, com bicicletas bem mantidas e adequadas às condições locais. Evitar o custo e o estresse do transporte facilita a viagem e permite começar a pedalar quase imediatamente após a chegada.

Eu optei pela Planet Bikes, uma das locadoras mais conhecidas da ilha. A loja oferece bicicletas de estrada, touring, mountain bike e e-bike, todas bem ajustadas às condições de vento e relevo de Lanzarote. O atendimento foi profissional e cuidadoso, com orientação sobre rotas e regulagem adequada da bicicleta antes da saída. 

Para uma viagem curta, com múltiplas conexões aéreas, alugar pode ser a escolha mais inteligente e simples. Para quem já está em rota longa com sua própria bicicleta, talvez leve vantagem manter o equipamento pessoal. No fim, a decisão não é apenas técnica — é estratégica. Em Lanzarote, quanto menos peso na logística, mais leve fica a experiência.

Nossa opção nessa viagem.: Bicicleta elétrica

Nesta viagem pela ilha, optei pela bicicleta elétrica, especialmente porque não estava sozinha. Viajei acompanhada do meu marido. Essa escolha fez toda a diferença, pois nos permitiu aproveitar cada trecho com mais conforto, sem a preocupação constante com o esforço físico excessivo.

A assistência elétrica nos deu liberdade para explorar rotas mais exigentes e enfrentar o vento constante de Lanzarote com mais tranquilidade, mantendo um ritmo agradável para nós dois, independentemente do terreno ou da distância do dia.

A bicicleta elétrica não retirou a essência da viagem. Continuamos expostos ao vento, às subidas longas e à paisagem vulcânica intensa. Apenas nos deu margem para apreciar melhor o caminho, conversar durante o trajeto e chegar ao fim de cada etapa com energia para continuar explorando.

Embora a ilha não tenha uma rede formal extensa de pontos públicos de carregamento, a infraestrutura turística facilita o apoio necessário — hotéis e hospedagens costumam ser receptivos ao carregamento das baterias, e as lojas especializadas oferecem suporte técnico caso seja preciso.

Melhor época

O clima nas Ilhas Canárias é muitas vezes descrito como “primavera eterna”, e em Lanzarote essa expressão faz sentido. A ilha mantém temperaturas estáveis ao longo de todo o ano, com pouca variação térmica entre estações. Não há inverno rigoroso nem verão sufocante como em regiões continentais.

Na primavera (março a maio), Lanzarote oferece um clima especialmente agradável: temperaturas suaves, vento constante e menos turistas — um dos melhores períodos para o cicloturismo.

No verão (junho a setembro), as médias ficam entre 24 °C e 30 °C, com calor seco e vento mais intenso. A pouca sombra exige hidratação constante e pedaladas nas primeiras horas da manhã ou no fim da tarde.

No outono (outubro e novembro), o clima volta ao equilíbrio, com temperaturas agradáveis, mar ainda aquecido e um ritmo mais tranquilo após a alta temporada.

Escolhemos viajar em dezembro — inverno na ilha — e encontramos temperaturas entre 16 °C e 22 °C. Os dias eram claros, com muitas horas de sol, e a chuva foi rara, embora esse seja o período com maior probabilidade de precipitação. Quando ocorre, normalmente são pancadas rápidas. É uma época confortável para pedalar, especialmente para quem vem de climas frios da Europa.

Navegação e Apps Recomendados

Para navegação ao longo das rotas o Google Maps funciona. Para quem prefere utilizar arquivos GPX, plataformas como Komoot e RideWithGPS são ótimas opções.

Hospedagem

A hospedagem em Lanzarote, de modo geral, é variada e bem estruturada. Nas áreas mais turísticas, como Puerto del Carmen e Costa Teguise, há ampla oferta de hotéis, apartamentos e pequenos hostels. Em vilas menores, como Yaiza, predominam casas rurais e hospedagens mais tranquilas, muitas delas receptivas a ciclistas.

Mas foi em Caleta de Famara que vivemos a parte imprevisível da viagem. Chegamos sob uma chuva torrencial. O vento soprava forte, e nós só pensávamos em um banho quente e um lugar seco para descansar. Ao chegar à hospedagem que eu havia reservado, descobrimos um problema de duplicidade na reserva. O quarto simplesmente não estava disponível.

Famara é uma pequena vila dominada pela cultura do surf. Há muitas escolas e alojamentos voltados para surfistas, e naquele momento tudo estava lotado. A chuva não diminuía, e a sensação de vulnerabilidade crescia.

Foi então que o imprevisto se transformou em encontro. Conversando com  com as pessoas aqui e ali encontrei um rapaz — um surfista local — explicamos nossa situação. Ele ouviu com naturalidade e, sem hesitar muito, ofereceu o seu “home motor”, uma adaptação simples onde costumava dormir entre as temporadas de ondas. Não era luxo. Era abrigo. Era generosidade.

Dormimos ali naquela noite chuvosa, protegidos mais pela hospitalidade do que pelas paredes. Viajar de bicicleta tem isso: a logística pode falhar, o clima pode surpreender, mas os encontros compensam.

Alimentação

A alimentação em Lanzarote é simples, sem excessos — e surpreendentemente saborosa. O mar dita o ritmo dos pratos. Peixes frescos, polvo, lulas, sempre preparados de forma modesta. Nada muito elaborado, porque a matéria-prima fala por si.

As “papas arrugadas” com molho mojo — tradição das Ilhas Canárias — aparecem em quase todas as mesas. Pequenas batatas cozidas com sal grosso, acompanhadas de molho vermelho (mojo picón) ou verde, intenso e aromático.

Nos povoados menores, os restaurantes são familiares, sem formalidades. Em vilas como Yaiza ou Caleta de Famara, a comida chega sem pressa, como se o tempo também estivesse à mesa.

E há ainda os vinhos de La Geria — cultivados em solo vulcânico, protegidos por pequenos muros de pedra negra. Um vinho que nasce da lava e carrega a mineralidade da ilha.

Orçamento

Tudo vai depender do estilo de viagem que você escolher. Se a ideia for acampar ao longo do caminho, é perfeitamente possível e gratuito. Para quem prefere um pouco mais de conforto, hospedando-se em motéis simples ou pousadas com café da manhã incluído, o gasto diário costuma ficar entre €20 e €80.

A alimentação também varia conforme as escolhas. Os supermercados ao longo do percurso oferecem uma ampla variedade de comidas prontas e embaladas, ideais para economizar. Já os restaurantes, especialmente os mais tradicionais ou localizados em áreas turísticas, costumam ter preços mais elevados. Com um pouco de planejamento, dá para equilibrar bem conforto e economia durante a viagem

O que levar no alforje

Quando se trata de bagagem, vale o seguinte: o mínimo possível, o máximo necessário. Aqui está uma lista (link para a matéria no blog) do que, na minha opinião, são as coisas mais importantes a se levar.

Além disso, não se esqueça de verificar sua bicicleta cuidadosamente antes da viagem. Viajar de bicicleta é definitivamente mais divertido quando as marchas e os freios estão ajustados corretamente e todas as partes móveis estão bem lubrificadas. Você também deve verificar os pneus antes do passeio. Recomendo aprender o básico de mecânica de bicicleta, como, por exemplo, trocar um pneu.

É aconselhável ter algumas ferramentas na bagagem: alavanca de pneu, kit de reparação/câmara de substituição e, claro, uma bomba de bicicleta.

Aconselho também a levar um kit de primeiros socorros.

Nosso Roteiro

O ponto de chegada:  Arrefice

Arrecife é capital de Lanzarote, e carrega um ritmo mais urbano, mais cotidiano. O que Arrecife tem de melhor não está na grandiosidade, mas nos detalhes. O Charco de San Ginés, uma pequena lagoa interna cercada por casas brancas e embarcações coloridas, é um dos seus cenários mais charmosos. 

Charco de San Ginés

Charco de San Ginés

Ali, no fim da tarde, a luz reflete na água e transforma o que poderia ser apenas um porto em um espaço de contemplação. É um bom lugar para sentar-se, descansar as pernas e simplesmente observar.

 

O Castillo de San Gabriel, ligado por uma pequena ponte de pedra, guarda parte da história defensiva da ilha. Não é monumental, mas é simbólico. Já o Castillo de San José abriga o Museu Internacional de Arte Contemporânea e mostra como Lanzarote consegue integrar arte e paisagem, algo muito presente também na influência de César Manrique.

Castillo de San Gabriel

Castillo de San Gabriel

Arrecife tem ainda praias urbanas como El Reducto, de areia clara e mar calmo, que contrastam com a aridez do interior da ilha. É ali que a cidade respira mar sem perder seu caráter local.

Para quem viaja de bicicleta, Arrecife funciona como ponto estratégico: concentra serviços, supermercados, lojas e fácil acesso ao aeroporto.

1ª Etapa: Teguise / Arrecife /Puerto del Carmen

De Arrecife seguimos de ônibus até Costa Teguise, um trajeto curto. Ali retiramos as bicicletas e, finalmente, iniciamos nossa pedalada pela ilha.

Saímos da Playa de Las Cucharas logo cedo, quando o vento ainda ensaiava sua força e o mar parecia mais azul do que o habitual. Las Cucharas é conhecida pelas velas coloridas do windsurf e do kitesurf que recortam o horizonte e dão movimento constante à paisagem.

Costa Teguise, diferente de áreas mais densas da ilha, tem uma atmosfera aberta e organizada, com avenidas largas, boa infraestrutura turística e fácil acesso às ciclovias.

A partir dali a ciclovia costeira conduz naturalmente o ritmo. O percurso segue quase sempre ao nível do mar, acompanhando o contorno da costa. À direita, o Atlântico constante; à esquerda, a paisagem vulcânica seca, em tons ocres e negros. O traçado é fluido, bem-sinalizado e, em grande parte, separado do tráfego, tornando a experiência segura e agradável.

No caminho surgem pequenas praias e enseadas, como a zona de Los Charcos, onde piscinas naturais se formam entre rochas vulcânicas. Antes de chegar a Arrecife, a rota reserva um desvio surpreendente: uma passagem em espiral construída em pedra vulcânica escura. Muros altos e curvos desenham um movimento circular que obriga a desacelerar. O horizonte se fecha por instantes, como se a paisagem pedisse pausa.

 

 

Mais adiante, a ciclovia contorna Arrecife, passa pelo Charco de San Ginés e margeia a Playa del Reducto. Ao deixar a cidade, seguimos novamente junto ao mar até a Playa Chica, em Puerto del Carmen — um trecho leve, perfeito para aquecer as pernas no início da viagem.

 

2ª Etapa : Puerto del Carmen / Arrieta 

Deixamos Puerto del Carmen logo pela manhã, com o mar ainda calmo e as ruas quase vazias. O vento soprava discreto, como se também estivesse despertando. Nessa etapa, percorremos parte do caminho do dia anterior, passando novamente por Arrecife e pela Costa Teguise, agora com outro olhar — a paisagem que ontem era descoberta hoje se tornava reconhecimento.

 

A partir dali, seguimos pela carretera Arrecife–Órzola, avançando em direção ao norte da ilha. Ao lado da estrada, a silhueta da Caldera de Tinamala nos acompanhou por um longo trecho, impondo sua presença escura contra o céu claro. Pedalar ali era sentir a força da origem vulcânica da ilha, como se cada curva lembrasse que tudo nasceu do fogo.

Seguimos em direção a Guatiza, pequena e silenciosa, cercada por cultivos protegidos por muros semicirculares de pedra vulcânica.

Ali visitamos o Jardín de Cactus, última grande obra de César Manrique na ilha. Mais de mil espécies convivem em um antigo terreno de extração de cinza vulcânica, transformado em anfiteatro botânico — um exemplo claro de como Lanzarote converte aridez em arte e paisagem em identidade.

 

O dia já avançava quando retomamos a estrada até Arrieta. O mar voltou a aparecer, azul intenso contra o negro da lava. Decidimos pernoitar ali, junto à costa, deixando que o som das ondas encerrasse a etapa com serenidade.

3ª Etapa : Arrieta /Caleta de Famara

Logo pela manhã deixamos Arrieta, mas não sem um pequeno imprevisto. Ao acordar, nos deparamos com o pneu completamente vazio — um furo inesperado que nos obrigou a começar o dia com as mãos sujas de graxa. A noite havia sido de chuva intensa, e o amanhecer trouxe céu nublado e ventos persistentes. Conserto feito, retomamos a estrada. 

 

 

Seguimos pedalando e fizemos uma parada no Jameos del Agua. Os “jameos” são aberturas naturais formadas quando o teto de um túnel vulcânico desaba, permitindo que a luz alcance o interior da caverna. Esses túneis nasceram de rios de lava subterrâneos originados nas erupções do vulcão La Corona. Décadas depois, César Manrique transformou esse espaço em um dos lugares mais emblemáticos de Lanzarote, integrando arquitetura e natureza com uma delicadeza rara.

Jameos del Agua

Jameos del Agua

No lago subterrâneo vivem pequenos caranguejos albinos, quase invisíveis — cegos, adaptados à escuridão constante. Existem apenas ali. São frágeis, silenciosos, e parecem reforçar a ideia de que aquele ambiente é único, quase secreto.

Pedalar após essa visita trouxe outra dimensão ao percurso. Lanzarote não é apenas paisagem bruta; é também interpretação, cuidado e integração. Entre o pneu furado da manhã e a harmonia silenciosa dos jameos, o dia já nos lembrava que viajar de bicicleta é aceitar tanto o imprevisto quanto a beleza planejada.

Pedalamos até Órzola, no extremo norte da ilha, onde paramos em uma praia isolada, com vista para a Cueva de Órzola e o mar aberto apontando para La Graciosa. O silêncio era absoluto.

 

Dali seguimos, e pelo caminho as plantações de aloe vera e as pequenas vinícolas convidavam a breves paradas. A estrada permanecia quase vazia, reforçando a sensação de isolamento que marca o norte de Lanzarote.

A subida ao Mirador del Río

Mas logo veio o desafio: uma subida exigente que nos levou até o Mirador del Río, revelando uma das vistas mais impressionantes do percurso. Mais do que um simples ponto de observação, é uma obra silenciosa integrada à montanha. Projetado por César Manrique na década de 1970, o mirante está quase invisível na paisagem, incrustado no topo do Risco de Famara. Lá do alto, a vista se abre para a ilha de La Graciosa e para o estreito de El Río, com o Atlântico se estendendo em diferentes tons de azul.

 

Logo depois veio uma descida abrupta, castigada por ventos laterais que quase nos desestabilizaram. Antes de Haría, enfrentamos uma sequência de curvas íngremes até atingir o topo do Monte Faja. O vento persistiu durante todo o trajeto.

 

O vilarejo de Teguise trouxe respiro, mas logo enfrentamos uma descida difícil, com pedregulhos e pedras soltas.

 

Um dia cheio de surpresas

Quase chegando a Caleta de Famara, fomos surpreendidos por uma chuva torrencial — rara na ilha — que fechou o dia com intensidade inesperada. Mas o dia ainda nos reservava outra surpresa. Ao chegarmos ao apartamento reservado, descobrimos que houve um erro no sistema e ficamos sem hospedagem — molhados, com a noite se aproximando. Uma vizinha gentil nos ofereceu toalhas e tentou ajudar, mas a pequena vila não tinha vagas disponíveis. Quando já não havia ônibus nem alternativas, um jovem surfista nos ofereceu um colchão em sua van adaptada. Guardamos as bicicletas na casa da vizinha e dormimos ali, acolhidos pela generosidade inesperada de Pau, um catalão de coração imenso.

 

E assim, depois de um dia tenso, terminamos o percurso profundamente agradecidos.

4ª Etapa: Caleta de Famara / Yaiza

O dia amanheceu encoberto, com nuvens baixas e vento moderado. Saímos de Caleta de Famara sob uma chuva fina que insistiu em nos acompanhar. O percurso segue pela carretera Teguise–Uga, cruzando o interior da ilha, onde a paisagem vulcânica parece ainda mais austera sob o céu cinza.

 

Diferente dos dias anteriores, a estrada estava um pouco mais movimentada e, em alguns trechos, mais estreita. A combinação de pista reduzida, tráfego constante e vento lateral exigiu atenção contínua. Seguimos firmes, quase em silêncio, concentrados no ritmo e na segurança.

 

Não houve paradas longas e poucos registros fotográficos. Foi um daqueles dias em que a prioridade não é contemplar, mas atravessar. Ainda assim, mesmo sob o tempo fechado, Lanzarote mantinha sua presença intensa — negra, mineral, resistente.

Chegamos a Yaiza com a sensação de dever cumprido

5ª Etapa: Um loop Yaiza / Parque Nacional de Timanfaya/Yaiza

Nesse dia fizemos um loop que nos levou ao coração vulcânico de Lanzarote. Saímos de Yaiza logo de manhã A chuva do dia anterior deu trégua, mas o tempo continuou nublado. A estrada nos conduziu por Uga e logo entramos na região de La Geria, onde os vinhedos crescem protegidos por muros semicirculares de pedra negra. Ali, a agricultura parece um ato de resistência — cada planta nasce no solo de cinza vulcânica, como se desafiasse a própria aridez.

 

Seguimos pela carretera de La Geria até a Caldera de los Cuervos, uma das crateras formadas pelas erupções do século XVIII. Caminhar até sua borda é quase tocar a origem da ilha. A terra ainda parece recente, crua, como se o fogo tivesse se apagado ontem.

 

 

A partir dali, entramos na área conhecida como Parque Natural de los Volcanes, que circunda o Parque Nacional de Timanfaya. É ali que estão as famosas Montañas del Fuego, cenário mais emblemático da ilha. Pedalar por essa zona é atravessar um território quase lunar — campos de lava solidificada, cones vulcânicos e uma paleta que oscila entre o negro, o ocre e o vermelho.

 

 

Passamos também pela área onde ficam os camelos, utilizados para passeios turísticos nas encostas vulcânicas. A imagem deles caminhando lentamente sobre a lava reforça a sensação de estar em um território fora do tempo.

 

A ida foi pela carretera de La Geria, entre vinhedos e crateras; o retorno pela LZ-67, estrada que corta o interior do Parque Nacional e oferece uma das experiências mais intensas de pedalada na ilha. O vento soprava aberto, sem barreiras, e a paisagem parecia infinita.

Voltamos a Yaiza com a sensação de ter atravessado o núcleo da criação de Lanzarote. Não foi apenas um percurso circular. Foi um mergulho na geologia viva da ilha.

6ª Etapa:  Yaiza /Playa Blanca / Puerto del Carmem / Arrecife

Deixamos Yaiza com o dia claro e o vento mais brando. Poucos quilômetros depois, fizemos uma parada nas Salinas del Janubio, um dos cenários mais impressionantes do sul da ilha. Do mirador, a vista é de tirar o fôlego: os tons rosados e esbranquiçados das salinas contrastam com o azul intenso do Atlântico. Enquanto contemplávamos a paisagem, fomos presenteados com um arco-íris completo, desenhando um semicírculo perfeito sobre o mar.

 

Seguimos pedalando pela LZ-2 até chegar a Playa Blanca. As nuvens haviam dado lugar ao sol, e o litoral assumia cores mais vivas. Fizemos uma breve parada para explorar a orla antes de avançar em direção a Femes, onde enfrentamos uma subida exigente. No topo, a pausa era necessária — não apenas para recuperar o fôlego, mas para absorver a vista ampla do sul de Lanzarote.

 

A partir dali, pela primeira vez naquela viagem, seguimos por um trecho de estrada de terra batida até Puerto del Carmen, sentindo a mudança do terreno sob as rodas.

 

De Puerto del Carmen, retomamos o caminho já conhecido até Arrecife, destino do dia, com a sensação de ter cruzado novamente diferentes faces da ilha em poucas horas.

7ª Etapa:  Arrecife / San Bartolomeu / Teguise

Hoje foi dia de devolver as bicicletas. Para não repetir o trajeto pela costa, decidimos avançar pelo interior da ilha, por caminhos ainda não explorados. Seguimos pelo Camino de Güime, onde o tráfego quase desaparece e a paisagem revela uma Lanzarote mais silenciosa e cotidiana.

 

Avançamos até San Bartolomé, vila situada no centro da ilha. Diferente das áreas costeiras, ali o ritmo é mais rural. Casas brancas alinhadas, pequenas praças e vinhedos próximos mostram uma comunidade que vive além do turismo de praia. Fizemos uma pausa para caminhar sem pressa e observar esse outro Lanzarote — menos dramático, mas igualmente autêntico.

 

Dali seguimos até a Fundación César Manrique, antiga residência do artista construída sobre bolhas de lava solidificada. A casa parece brotar da rocha, integrando arquitetura e natureza de forma quase orgânica. Ali compreende-se melhor a dimensão de César Manrique — pintor, escultor, arquiteto e ativista ambiental. Sua obra não se limita aos espaços físicos que projetou na ilha; ele escreveu e defendeu, ao longo da vida, um modelo de desenvolvimento sustentável que preservasse a identidade paisagística de Lanzarote. Sua produção artística e seus textos refletem essa visão: arte como integração, não como imposição.

 

Ao sair dali a pedalada final até Costa Teguise ganhou outro significado. Devolvemos as bicicletas com a sensação de missão cumprida. Havíamos atravessado a ilha de ponta a ponta.

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