Pedalando pela Four Rivers Traill : uma experiência inesquecível no país dos doramas
702,3 km foi a distância que percorri ao longo dos quatro rios — Han, Nakdong, Geum e Yeongsan — que compõem a rota (houve alguns desvios – oficialmente são 633 km). No geral, cumpri uma média de 70,2 km por dia, com pico de 103 km no 2º dia.
10 Etapas: esse foi o número de dias efetivos de ciclismo que levei para completar o percurso
Início : pedalando a partir de Seul
Seul é uma cidade densamente povoada, vibrante e cheia de movimento. Seria natural questionar a ideia de iniciar uma cicloviagem justamente em meio ao trânsito caótico de uma metrópole tão intensa — e desconhecida para mim. Por isso, a escolha da hospedagem foi estratégica para evitar estresse logo no início da jornada.
Optei por me hospedar próxima ao Yeouido Hangang Park, um amplo parque às margens do rio Han, localizado entre a avenida Mapo-daero e a ponte Mapo (Mapodaegyo). Essa área é atravessada pela famosa Four Rivers Trail, rota que eu havia planejado percorrer.
Assim que cheguei à cidade, segui direto para a loja Giant, muito próxima ao hotel. Fui calorosamente recebida, pude testar a bicicleta, fazer todos os ajustes necessários e me preparar com tranquilidade. No dia seguinte, estava pronta para começar mais uma cicloviagem.
Apesar de já estar conectada à ciclovia, decidi não iniciar dali. Preferi fazer o trajeto completo e oficial da Cross-Country Route, que vai de Incheon a Busan. Para isso, me desloquei até o ponto inicial da Ara Bicycle Path, que segue paralela ao canal Gyeongin Ara até se conectar com a Hangang Bicycle Path em Seul. Esse é considerado o início oficial da rota certificada — e eu queria carimbar cada etapa do caminho.
Explorar Seul ficou para depois.
1º Etapa : De Seul a Incheon – 49,7 km
Saí cedo do hotel, pedalando por uma ampla avenida em direção à ponte Yeoui-daero. Poucos minutos depois, já estava dentro do Yeouido Hangang Park.
Logo avistei as primeiras marcações da ciclovia no asfalto — e confesso que respirei aliviada. Estava oficialmente no caminho.
Na ciclovia (Hangang Bicycle Path) segui ao lado o rio Han. Um percurso com um visual amplo e urbanizado, mas sem perder a sensação de tranquilidade. Ali, não estava sozinha: havia muitos outros ciclistas — alguns em bikes speed, outros em dobráveis. Gente de todas as idades aproveitava a manhã ensolarada para se exercitar.



Ao longo do caminho, passei por academias ao ar livre, banheiros, áreas de descanso, conveniência e cabines vermelhas conhecidas como Stamp Booths. Tudo isso me deixou muito à vontade, com a sensação de estar em uma ciclovia pensada de fato para o ciclista.



Levei um bom tempo para deixar Seul para trás. A cidade parecia se estender por quilômetros. Mas aos poucos, a paisagem foi se abrindo. O cenário passou a ser dominado por campos, árvores e o canal Gyeongin Ara — era ali que começava a tão esperada Ara Bicycle Path.



Com um traçado plano e pavimentado, livre de veículos, o pedal foi tranquilo. A ciclovia seguia pelas margens do canal, cruzando pontes, parques e pequenos vilarejos.

Cheguei a Incheon com tranquilidade. O primeiro dia superou as expectativas. Uma introdução perfeita à infraestrutura de ciclismo da Coreia do Sul — e só estava começando.
Assim que cheguei, segui direto para o Ara West Sea Lock Certification Center, um ponto oficial para ciclistas que percorrem a rota Cross-Country.
Ara West Sea Lock Certification Center


Foi lá que adquiri meu Bike Passport (passaporte de cicloturismo) e carimbei minha primeira certificação, marcando oficialmente o início da jornada pela Four Rivers Trail.


2º Etapa : Incheon a Seoul – 46,8 km
Na noite anterior, choveu torrencialmente. E, quando o dia amanheceu, a chuva continuava forte. Fiquei em dúvida se deveria seguir viagem debaixo daquele temporal. Normalmente, nas minhas viagens, quando chove, eu faço uma pausa. Mas meus dias na Coreia do Sul estavam contados — e não tive escolha. Me agasalhei, vesti roupas impermeáveis dos pés à cabeça e segui viagem.

A rota começava perto da Eclusa do Mar de Ara West, o ponto onde o canal desemboca no Mar Amarelo, conhecido pelos coreanos como Mar Ocidental. O percurso foi o mesmo do dia anterior, mas no sentido oposto. Como a ciclovia segue pelos dois lados do rio, optei desta vez pelo lado contrário.


Durante todo o trajeto, a chuva não deu trégua. A estrada estava silenciosa, completamente vazia — eu era a única pessoa no caminho. Mesmo assim, fiz algumas paradas para fotografar: a paisagem cinza e molhada também tinha sua beleza.

Cheguei a Seul sob uma chuva intensa. Fiz uma pausa em uma loja de conveniência e, como os coreanos, experimentei o lámen quente — simples, barato e reconfortante.

Encontrar um lugar para me hospedar, encharcada e exausta, não foi tarefa fácil… mas, no fim, tudo deu certo.
3º Etapa : Seul a Yeoju – 103 km
Logo cedo, deixei Seul para trás e comecei a pedalar pela Hangang Bicycle Path, ao lado do rio Han. A cidade ainda despertava enquanto eu avançava por um vasto corredor verde que corta a metrópole. O asfalto liso e bem-sinalizado tornava a pedalada fluida, apesar das placas estarem apenas em coreano — o tradutor de aplicativos foi essencial.



Me chamou a atenção a quantidade de parques urbanos integrados ao percurso — foram oito ao todo, cada um com sua identidade própria. Muitos deles possuíam áreas de descanso e diversas intervenções artísticas, como, por exemplo, no Banpo Hangang Park, onde há uma exposição de esculturas ao ar livre, parte do projeto “한강 조각으로 피어나다” (traduzido aproximadamente como “Florescendo com Esculturas do Hangang”).
Nos parques as cabines vermelhas conhecidas como Stamp Booths, onde é possível registrar sua passagem com carimbos oficiais.
Linha ferroviária Jungang
Mas o que realmente me impressionou nesse trecho foi a transição entre o presente e o passado — marcada pelos antigos túneis ferroviários reaproveitados ao longo do caminho. A ciclovia segue por um antigo leito da linha ferroviária Jungang, construída na década de 1940 durante a ocupação japonesa. Esses túneis, antes usados por trens que cruzavam o país, hoje foram restaurados e transformados em passagens exclusivas para ciclistas.
São vários ao longo do caminho, mas alguns me marcaram mais: o Yongdam Tunnel, com 441 metros e iluminação cênica; os Buyong Tunnels, numerados de 1 a 4, com curvas suaves e uma atmosfera quase cinematográfica; e o mais longo de todos, o Gigok Art Tunnel, com 569 metros — onde luzes de LED coloridas dançam nas paredes conforme você pedala. A sensação é de atravessar portais do tempo, onde o antigo e o moderno se encontram.
Yongdam Tunnel

O Tunel de arte Gigok é um dos mais longos de Yangpyeong. quando ligados , os LEDS mudam de cor iluminando suas paredes.

Ainda nesse mesmo trecho, uma das travessias mais emblemáticas foi pela ponte ferroviária de Bukhangang. Hoje adaptada para ciclistas e pedestres, conserva as ripas de madeira do antigo trilho, que produzem um som peculiar sob as rodas da bicicleta.
Bukhangang Railroad Bridge,
Um encontro
Durante o trajeto vi um cicloviajante. Algo me impulsionou a parar e puxar conversa — algo que, sinceramente, não costumo fazer. Mas logo percebi que aquele encontro não foi por acaso. Ele era francês e, para minha surpresa, seguia exatamente a mesma rota que eu.
Mais tarde, me vi diante de um cruzamento confuso, no meio do nada, sem qualquer sinalização. Meu GPS resolveu parar de funcionar justo ali, quando eu mais precisava. Sem saber para onde ir, parei um carro que passava na tentativa de pedir informações. Mas a comunicação era quase impossível, mesmo com a ajuda do tradutor.
Foi então que, como se guiado pelo destino, o ciclista francês apareceu novamente. Juntos, seguimos por um trecho, dividindo o caminho e o alívio de não estar sozinha naquele momento de dúvida. Pouco tempo depois, nos despedimos e cada um seguiu seu ritmo.
Não demorou , cheguei a Yeoju, destino do dia.
4º Etapa : Yeoju a Chungju – 57,5 km
Saí de Yeoju com o céu limpo e a promessa de um longo dia pela frente. Ainda nos arredores da cidade, fiz uma parada no Phone Museum & Gallery, um museu inteiramente dedicado a telefones e celulares — considerado o único museu particular do tipo no mundo. O acervo impressiona: dos primeiros modelos do mundo aos primeiros telefones coreanos, passando por raridades curiosas e modelos modernos. Foi uma visita inesperadamente interessante — nunca tinha visto nada parecido.

O percurso segue o Namhan River Bicycle Path, ora por ciclovias ora por estradas compartilhadas, sempre margeando o rio Namhangang, com belas paisagens naturais ao redor. A tranquilidade do rio era um contraste ao vento contrário constante, que me acompanhou quase toda a jornada.
Parei para descansar próximo ao rio. Sentei-me, e apenas observei a paisagem. Tudo ali parecia seguir em outro tempo, mais lento, mais contemplativo. Mais uma vez percebi que o verdadeiro ritmo de uma viagem não está nos quilômetros percorridos, mas no quanto se absorve pelo caminho.
Mais à frente, outra parada — desta vez para apreciar a confluência dos rios Seom e Namhan, um dos marcos da Four Rivers Trail. No local, um barco simbólico marca o encontro entre os dois rios.

Apesar do esforço extra por conta do vento, o trajeto foi recompensador. Enfrentei algumas subidas suaves, o suficiente para me lembrar da topografia ondulada da região, mas nada muito desafiador.

No caminho, cruzei com cavaleiros atravessando os campos, agricultores preparando a terra e pescadores instalados com suas varas nas margens, sob tendas improvisadas.
A chegada em Chungju foi tranquila, com direito a mais um prato típico coreano para fechar o dia.
Kimchi de acelga… Uma delicia. Na cultura coreana ele é consumido em quase todas as refeições.
Um trecho cheio de encontros simples e paisagens que pedem para serem contempladas com calma — como deve ser numa boa cicloviagem.
5º Etapa : Chungju a Mungyeong-Eup – 49,2 km
O dia começou com céu aberto e a promessa de um trecho mais montanhoso. Em Chungju inicia a Saejae Bicycle Path. Mas, antes de deixar a cidade, fiz uma parada no Tangeum Park, um espaço agradável às margens do rio. O parque é conhecido por seu mirante e pela vista panorâmica da represa de Chungju.
Ao deixar o parque, a ciclovia segue por um trecho de paisagens deslumbrantes. As montanhas emoldurando o rio deixavam o caminho mais tranquilo, como se tudo ali pedisse silêncio e contemplação.
Não demorou para que eu chegasse a uma das áreas mais belas do percurso. Conhecida pelos seus oito picos rochosos (팔봉, Palbong), a região abriga também a ponte suspensa Sujupalbong Cloud Bridge, construída entre dois desses picos. A travessia oferece vistas panorâmicas espetaculares da paisagem e do rio abaixo.
O lugar estava cheio de pessoas acampando e pescando, aproveitando o clima agradável do dia. Fiz uma pausa para observar o movimento: famílias reunidas, barracas montadas e varas de pesca alinhadas à margem do rio. O ambiente transmitia uma sensação de lazer simples e genuíno.


Ao lado da ponte, um belíssimo pavilhão tradicional coreano (jeongja) está situado em uma área natural de contemplação. Bastaram alguns minutos ali para recarregar minhas energias.
Dali segui pedando até chegar em Suanbo um pequeno vilarejo tem mil anos de história .
O primeiro grande desafio foi o Sojoryeong
Depois de deixar Suanbo para trás, a paisagem começou a se transformar — as linhas suaves do rio deram lugar às curvas fechadas da estrada que serpenteava pelas montanhas. O primeiro grande desafio foi o Sojoryeong, ou Sojo Pass. A inclinação não era absurda, mas constante.
Por cerca de três quilômetros, a subida exigiu força nas pernas e paciência na respiração. O silêncio da floresta era cortado apenas pelo som ritmado das pedaladas. Não era um trecho técnico, mas o peso da bicicleta e o calor do dia faziam tudo parecer mais longo. Era o tipo de subida que testa a constância, mais do que a explosão.
Ihwaryeong
Mal tive tempo de recuperar o fôlego e já encarava o segundo obstáculo: o temido Ihwaryeong — também conhecido como Ihwa Pass. Esse sim, impunha respeito. A subida se estendia por quase cinco quilômetros, com trechos que pareciam intermináveis. Havia curvas em zigue-zague, algumas tão íngremes que o corpo parecia pedir ar a cada pedalada. Em certos momentos, empurrar a bicicleta era a única opção. Era uma escalada solitária, onde o tempo parecia desacelerar. Mas ao chegar ao topo, a sensação de conquista era intensa.
Túnel no topo do Passo Ihwa , marcando o divisa entre o Condado GOESAN e a cidade de MUNGYEONG
Confesso: não foi fácil para mim. Cansada, comecei a ter um único pensamento: encontrar um lugar para dormir. Olhei o GPS várias vezes, esperando algum ícone salvador. Finalmente, apareceu uma pensão marcada bem próxima à ciclovia — bastava atravessar uma ponte.
Um encontro inesperado
Do outro lado, encontrei apenas duas casas. Nenhuma placa, nenhum sinal de hospedagem. Ainda assim, bati na porta de uma delas. Uma mulher me atendeu. Com gestos, tentei perguntar se ali era a pensão. Ela respondeu que não. Desanimada, agradeci, me virei e comecei a me afastar.
Foi quando ouvi, atrás de mim, uma pergunta em inglês: “Where are you from?”
“Brazil,” respondi, surpresa.
A próxima pergunta me pegou de surpresa: “How old are you?”
“67,” disse, sem entender o motivo.
Ela me deixou ali na porta, entrou rapidamente e voltou falando ao telefone em coreano. E então veio a reviravolta: ela estava conversando com Soonju, uma mulher que conheci em uma viagem ao Laos e que mora em Seul. Era inacreditável. A mulher que me atendeu — Seo — era cunhada de Soonju! E o mais curioso: Soonju havia comentado com ela sobre uma brasileira que viajava o mundo de bicicleta.
Em poucos minutos, o que era desânimo virou acolhimento. Seo me convidou a ficar em sua casa. Me ajudou a me instalar, me levou a um restaurante local, apresentou seus amigos e ainda me proporcionou a experiência de provar o famoso churrasco coreano, o samgyeopsal.

Foi uma noite inesquecível, fruto de uma coincidência que parecia mais destino. No fim, mais uma vez, a estrada mostrou que as melhores surpresas vêm quando menos se espera.
6º Etapa : Mungyeong-Eup a Nakdong – 74,1 km
O dia começou com uma longa e suave descida até o rio Nakdong. Foi um alívio para o corpo após os trechos mais montanhosos dos dias anteriores. A paisagem também começou a mudar: vilarejos mais densos surgiram no caminho, junto a plantações bem cuidadas que acompanhavam o traçado do rio.
O percurso alternava entre ciclovias bem pavimentadas e trechos de estrada compartilhada com pouco movimento.
Tudo indicava um dia tranquilo… mas não foi bem assim.
Duas obras no caminho me pregaram peças. As placas de sinalização estavam mal posicionadas e acabei sendo levada por caminhos equivocados. No primeiro desvio, fui parar numa trilha em meio ao mato, estreita e nada convidativa. Precisei tirar os alforjes da bicicleta, empurrá-la morro acima e, depois de muito esforço, descobrir que não havia saída. No segundo erro, segui por uma estrada completamente abandonada, sem sinal de que havia desvio ou retorno.
Foram momentos de frustração, mas também de aprendizado. Com calma e um olhar mais atento ao GPS (quando ele colaborava), consegui retornar e reencontrar o rumo certo.
A pausa do dia foi em Sangju, onde aproveitei para visitar o Museu da Bicicleta. Um lugar encantador para quem ama viajar sobre duas rodas. O museu apresenta desde bicicletas antigas — algumas verdadeiras preciosidades mecânicas — até modelos modernos, com foco no papel da bicicleta na cultura e na história coreana.
Depois da visita, continuei o trajeto até Nakdong, onde finalizei o dia com a sensação de que, mesmo em meio a imprevistos, tudo pode virar memória — e história boa para contar.
7º Etapa : Nakdong a Daegu – 72,2 km
Hoje foi dia de aproximação a uma das maiores cidades da Coreia do Sul: Daegu. Sigo pedalando agora pela Nakdonggang Bicycle Path , a mudança de paisagem foi gradual, com a ciclovia me levando por áreas urbanas, parques bem cuidados e trechos cada vez mais densamente povoados. A sinalização seguia impecável, e mesmo com o crescimento do tráfego ao redor, o caminho permanecia seguro para quem viaja de bicicleta.
Ao passar por Gumi, pedalei por um trecho de ciclovia que corre paralela à estrada de acesso à cidade. Foi interessante observar a dinâmica do trânsito e o ritmo da vida urbana se intensificando. Mais adiante, enfrentei um longo percurso ao lado de uma autoestrada bastante movimentada — o barulho constante dos caminhões era um lembrete de que eu estava me aproximando de uma metrópole.
Mas o maior desafio do dia ainda estava por vir.
Faltavam apenas 14 km para chegar a Daegu, e eu já havia pedalado cerca de 85 km. Exausta, tudo o que queria era chegar. Foi então que senti a bicicleta pesada, instável. O temido pneu traseiro havia furado. E não era qualquer pneu — era o pneu travesseiro, mais trabalhoso de trocar. Inacreditavelmente, essa foi a primeira vez em todas as minhas viagens pelo mundo que enfrentei um pneu furado desse tipo.
Sem forças para desmontar tudo, vi ao longe três senhores pescando à beira do rio, com uma caminhonete estacionada ao lado. Decidi arriscar e pedir ajuda. Com gestos e um pouco de mímica, consegui explicar a situação. Para minha surpresa, um deles prontamente se ofereceu para me levar até o centro de Daegu — e ali, me deixou diretamente em uma oficina.
Esse gesto de gentileza me comoveu. Mais uma vez, fui lembrada de como a estrada pode ser dura, mas também generosa.
Ao chegar, Daegu me recebeu com uma infraestrutura moderna e um certo charme urbano que eu não esperava. Após o banho e o descanso, caminhei um pouco pela cidade e senti que havia muito por descobrir ali.
Cada dia de pedal guarda uma surpresa — às vezes, um desafio mecânico; às vezes, um encontro que aquece o coração.
8º Etapa : Daegu a Guji-Myeon – 71,8 km
Logo no início da pedalada de hoje, cometi um erro que custaria tempo e energia: saí da cidade no sentido contrário. Só percebi o engano alguns quilômetros depois — e, ironicamente, fui parar exatamente no local onde, no dia anterior, um pescador havia me ajudado. Como se a estrada estivesse me lembrando que atenção é tão essencial quanto resistência.
O desvio somou 25 km. Respirei fundo, dei meia-volta e retomei o rumo certo.
Mas logo surgiu outra surpresa: o GPS me guiou para uma autoestrada movimentada, sem ciclovia e com o tráfego intenso de carros e caminhões. Algo estava errado.
Avistei uma base dos bombeiros e parei para pedir ajuda. Mostrei o mapa e eles confirmaram: eu estava fora da rota. Mais uma vez, precisei voltar.
Alguns quilômetros depois, encontrei um ciclista local. A barreira do idioma não impediu o gesto mais generoso do dia: ele se ofereceu para me guiar até a ciclorrota correta. Pedalamos juntos por 11 km, tempo suficiente para trocar histórias e sonhos. Falei das minhas viagens de bicicleta pelo mundo; ele contou que um dia quer fazer o mesmo.
Nos despedimos com um sorriso e um aperto de mão. Um daqueles encontros breves, mas marcantes — só possíveis quando nos perdemos para, de alguma forma, nos encontrar de novo.
Quase chegando a Guji-myeon, passei pela Dodongseowon Confucian Academy — também conhecida como Dodong Seowon — uma antiga academia confucionista. Estava ansiosa para conhecer o local, mas, devido a um imprevisto no dia, quando finalmente cheguei, encontrei os portões fechados.
Dali, segui com mais do que um novo destino: segui com aquela certeza de que, mesmo nos desvios, a estrada sempre traz algo valioso.
9º Etapa : Guji-Myeon a Bonpo-Ri – 88,1 km
Deixei Guji pela manhã e, mal comecei a pedalar, já enfrentei a primeira grande subida do dia. O caminho me levava para as montanhas, numa ladeira íngreme e persistente.
No final dessa subida, como um presente pela persistência, encontrei o templo Musansa — um lugar sereno, em meio ao verde.
A rota continuou exigente, com longas subidas por uma serra arborizada. O silêncio era absoluto, e o trecho muito mais isolado do que os anteriores. Foi nesse cenário que encontrei três cicloviajantes: um finlandês e dois californianos. Em vários momentos, precisei descer e empurrar a bicicleta. Não fui a única — vi o finlandês fazendo o mesmo
O trajeto atravessa os passos Yeongaji e Angaesil — desafiadores, mas belíssimos. Depois de horas de subidas, um pequeno gazebo serviu como parada para descanso. Só depois de 56 km apareceu a primeira cidade com opção de hospedagem. Ali reencontrei os californianos, que decidiram pernoitar. Mas como ainda era 14h30, resolvi seguir adiante.
A decisão, no entanto, quase me deixou sem abrigo.
Já eram 17h30 e eu pedalava sem sinal claro de uma cidade com hospedagem. A paisagem era linda, mas o corpo começava a dar sinais de cansaço. Num pequeno vilarejo, perguntei a um senhor, que indicou seguir por mais 4 km. Mas o caminho indicado passava por uma autoestrada, o que me deixou apreensiva. Vi uma jovem esperando à beira da estrada e resolvi confirmar com ela. Nesse instante, a pessoa que ela esperava chegou — um rapaz muito prestativo, que não hesitou em me oferecer ajuda.
Colocamos a bicicleta no carro e ele me levou até um hotel na cidade seguinte.
No fim, mesmo nos dias mais difíceis, a generosidade e os encontros inesperados continuam sendo as partes mais bonitas dessa jornada.
10º Etapa : Bonpo -Ri a Busan – 84,9 km
Depois do dia mais difícil da viagem, o percurso entre Bonpo-ri e Busan veio como um presente: plano em quase toda a sua totalidade. Um verdadeiro alívio para o corpo cansado e um convite para pedalar com mais leveza e contemplação.
Logo no início do trajeto, tive um encontro marcante. Uma ciclista coreana se aproximou com um sorriso e, usando o tradutor do celular, insistiu para que eu cruzasse com ela para o outro lado da ciclovia. Ela me convenceu de que o lado norte era mais bonito. Aceitei o convite e não me arrependi. Apesar de aumentar o trajeto em cerca de 8 km, o trecho revelou uma vista magnífica da confluência dos rios Miryang e Nakdong — um espetáculo.
A pedalada seguiu tranquila, passando pelas cidades de Hanam e Miryang. Entre Miryang e Yangsan, a ciclovia acompanha a linha ferroviária de Gyeongbu.
À medida que Busan se aproximava, o cenário ia mudando. O verde dava lugar ao concreto, e o som da natureza era substituído pelo burburinho urbano. Era o último dia da jornada — e a cidade costeira sinalizava que a linha de chegada estava próxima.
Chegar ao estuário do Nakdonggang, onde está o último carimbo da rota Four Rivers Trail, foi simplesmente emocionante. Depois de dias de pedaladas, paisagens, encontros e superações, aquele pequena cabine vermelha, com o carimbo final, parecia um troféu.

