Viagem solo de bicicleta: transformando solidão em solitude
Viajar sozinha de bicicleta é mais do que percorrer quilômetros — é atravessar a si mesma. Quando comecei minhas viagens, aos 58 anos, muitos imaginavam que a estrada seria um território solitário, talvez até perigoso demais. Mas bastou a primeira rota para eu perceber que, embora a solidão apareça, é a solitude que fica — e que transforma.
A solidão que acompanha as primeiras pedaladas
No início, a solidão era uma visitante constante. Lembro-me dos primeiros dias no Caminho Francês de Santiago de Compostela, quando eu ainda estava aprendendo a confiar no ritmo da bicicleta e no silêncio ao redor. E, quando a noite caía, surgiam as perguntas inevitáveis:
O que estou fazendo aqui sozinha? Será que dou conta?
Senti o mesmo na minha primeira grande travessia internacional. Na Patagônia, pedalando entre El Chaltén e Ushuaia, o vento contrário gritava e a imensidão parecia maior do que eu. Em certos trechos, o silêncio era tão profundo que parecia que o mundo havia parado.

Havia solidão também nos vilarejos rurais do Vietnã, ao seguir de bicicleta por lugares onde ninguém entendia meu idioma. E nos pequenos trechos de floresta na Coreia do Sul, quando pedalei longos quilômetros sem ver um único rosto humano.

A solidão, nesses momentos, é legítima. Ela faz parte do começo.

O instante da virada: quando a estrada começa a conversar
Mas toda viagem solo tem um ponto de virada — um momento em que algo muda por dentro.
Na República Tcheca, essa transformação começou quando encontrei Val, uma ciclista americana que seguia rumo a Budapeste. Aquele encontro breve, no meio do nada, me ensinou algo simples: não estamos tão sós quanto imaginamos. Sempre há alguém no caminho — e às vezes basta um aceno para reacender a coragem.
Pela Europa, vivi essa virada inúmeras vezes. Nas pequenas cidades da Alemanha, entre castelos, pontes e vilarejos medievais, percebi que o silêncio não era vazio: era espaço. Era convite. Nas catedrais, fiquei longos minutos observando a luz dourada entrando janelas antigas. Ali, sem ninguém esperando por mim, pude simplesmente existir.


Na Coreia do Sul, pedalando pela Four Rivers Trail, a virada veio nos encontros espontâneos: um senhor que me ofereceu água gelada, um ciclista que pedalou alguns quilômetros ao meu lado só para conversar.

Cada gesto dissolvia um pouco da solidão — e construía, devagar, a solitude.
Solitude: o silêncio que acolhe
A solitude chegou quando aprendi a estar só sem sentir falta — não porque os outros não importam, mas porque minha própria companhia se tornou suficiente.
Ela se revelou:
- na beira do Rio Elba, quando percebi que o mundo não tinha pressa comigo;
- nas estradas de terra da Estrada Real, onde cada pedra parecia contar um trecho da história do Brasil;
- nas noites estreladas da Patagônia, onde o silêncio abraça mais do que assusta;
- nos campos de arroz do Vietnã, onde me senti pequena e, paradoxalmente, protegida;
- no vento suave da Holanda, pedalando entre canais infinitos, quando corpo, bicicleta e mundo entraram no mesmo ritmo.

A solitude nasce quando deixamos de resistir ao silêncio — e passamos a habitá-lo.
O que a solitude me ensinou
Depois de 42 rotas e 31 países, aprendi que solitude não é ausência. É presença. É clareza. É força.
Ela me ensinou a:
- confiar no meu próprio julgamento;
- dormir em qualquer lugar, com serenidade;
- enfrentar ventos fortes, montanhas e tempestades sem perder a calma;
- tomar decisões sozinha — desde o caminho até as pessoas que vale a pena deixar entrar;
- enxergar beleza no simples;
- valorizar encontros casuais que deixam marcas profundas.
A solitude mostrou que a viagem solo não é sobre provar algo ao mundo — é sobre descobrir algo em mim.
A estrada como mestra
Em cada rota, percebi que a estrada reflete o que carregamos por dentro:
- na Coreia do Sul, encontrei minha disciplina;
- na Patagônia, minha coragem;
- no Vietnã, minha sensibilidade;
- na Europa, minha busca pelo belo;
- no Brasil, minha raiz — e um corpo moldado mais pela história do que pela força.
Viajar sozinha de bicicleta é, no fundo, uma conversa contínua com o próprio coração. E essa conversa não começa no primeiro quilômetro — começa na primeira escolha: a de ir.
Conclusão
Hoje sei que a estrada nunca foi um lugar de abandono. Foi — e é — um lugar de encontro. A solidão inicial se tornou matéria-prima para a solitude: essa companhia leve, sensível e firme que me acompanha em cada novo país, cada nova rota, cada novo amanhecer.
A viagem solo não nos afasta do mundo. Ela nos devolve a nós mesmas — mais inteiras, mais verdadeiras, mais serenas.
Viajar sozinha de bicicleta não é sobre estar só. É sobre estar consigo. E isso é, no fim das contas, uma forma profunda de liberdade.
